O ALARMA: DIÁRIO DE UMA SOCIEDADE PLURAL
Ivaneide Gomes da Silva - UNEB
...o contexto por trás do texto, as relações de poder que conformam a herança documental lhe[s] dizem tanto, se não mais, que o próprio assunto que é conteúdo do texto. Nada é neutro. Nada é imparcial. Tudo é conformado, apresentado, representado simbolizado, significado, assinado, por aquele que fala, fotografa, escreve, ou pelo burocrata governamental, com um propósito definido, dirigido a uma determinada audiência. Nenhum texto é um mero subproduto, e sim um produto consciente para criar uma persona ou servir a um propósito, embora essa consciência, ou persona, ou propósito – esse contexto por trás do texto – possa ser transformado, ou perdido, em padrões inconscientes de comportamento social, em discurso institucional e em fórmulas padronizadas de informações.
Cook, 1998, p.139-140. In: Veiga, Benedito da. 2000, p. 14-15.
Rastreando o arquivo “ambulante” (assim o digo pois a professora luta em busca de um local permanente para depositar o riquíssimo material que se encontra em seu poder e, desse modo, servir melhor aos pesquisadores) pertencente a pesquisadora Iraci Gama Santa Luzia, encontrei-me com vinte e quatro riquíssimos exemplares de O Alarma, exceto os números 2, 20 e 23. Nestes periódicos são encontradas uma diversidade de noticiários extremamente divertidos e irreverentes: trata-se de uma espécie de jornal local e particular – comparando-se com os jornais atuais- que é veiculado para toda a sociedade leitora, melhor dizendo, para pagantes de assinaturas dos grandes jornais para se ter acesso a informações as mais diversificadas possíveis: lazer, fofocas, notas sociais, notícias de utilidade pública, literatura, dentre outros convidativos assuntos. O Alarma obtinha apenas uma colaboração mensal dos seus assíduos leitores, participantes e colaboradores e que era veemente cobrada através de notinhas-lembretes apelativos, tais como: paguem o jornal, Auxiliem ‘O ALARMA’ pagando suas assinaturas antecipadamente.
O primeiro exemplar, datado de 14 de março de l932, traz o explicativo do surgimento do jornal , assemelhando-se com isso, a uma página de um diário social que esclarece para o leitor suas pretensões e características na matéria “Nossas palavras”:
Apparece nos torvelinhos da nossa cidade, “O ALARMA”, jornal humorístico e crítico, mas inofensivo. Elle é para proporcionar-vos horas de delícias. Portanto, não o admireis como jornal de fina literatura, nem tão pouco como arauto offensivo a vossa moral.
Fazer um jornal crítico, caro leitor, por certo, é vellejar num mar tempestuoso, como uma nau enfrentando os vagalhões. Travar lucta com a torpesa dos destinos...
“O ALARMA” surge momentaneamente, do caos do Nada, pela força de vontade, pelas ações dinâmicas, de uma mocidade de espírito illuminado.
Ella, não almeja fazer, de “O ALARMA”, profissão rendosa.
Vencerá? Por certo que sim, porém, para isso, é necessário encontrar o vosso apoio , contar com a vossa boa vontade
Avante, seguiremos; o primeiro passo já é dado. Resta revigorarmos as energias cada vez mais e marcharmos resolutos, não temendo perigos, entoando o pean da victoria!...
Esta matéria nos dá subsídios necessário para supormos quais eram as pretensões e interesses dos produtores d’O Alarma. Utilizando-se de palavras mais parecidas com um discurso de abertura solênica, revela a força coletiva e o desejo igualmente coletivo de crescimento pela coletividade, sinônimo de pluralidade, visando um bem comum, mesmo que não rentável, bastando, apenas, que propiciar o prazer da materialização dos desejos.
Em O Alarma o grupo de escritores se camuflavam em pseudônimos e assumiam, papéis diversificados e compatíveis com os artigos produzidos. Vejamos alguns exemplos, dentre muitos que aparecem nos exemplares supra-citados: romântico como Romeu, que faz declarações de amor A A. L. S. na coluna “Recados”, do volume 3:
Eu sempre nutri a esperança que seria ainda o eleito do teu coração.
E verde desta esperança nunca cheguei a empalidecer.
O colorido da minha verde-esperança, encontrava nos olhos teus.
Esses teus lindos olhos revelam-me o verdadeiro sentimento que trazias no recôndito da tua alma, disfarçado com a apparencia de um indifferentismo glacial.
Hoje, afinal tu me amas. Não mentiam os olhos teus.
Ode aos olhos teus!
Já no artigo – que mais parece uma crônica desqualificadora de um alagoinhense- denominado “Cousas de Judas” o romântico Romeu apresenta outra face: ironiza Silvinho através de um apelido que lhe deu José Popular – também uma pessoa alagoinhense – que o chamou de “Bijou”, da seguinte maneira, no final do artigo:
Incontestavelmente, o Silvinho é ou não é pequeno? Pòde ser ou não chamado “Bijou”? Que julguem os leitores.
Romeu
E, ainda, a esperteza do Dectetive com suas investigações sobre os passos dos demais companheiros nas ruas da cidade através da coluna “Policiando”, no primeiro volume:
Na rua 2 de Julho, escorando um poste da illuminação, vejo todas as noites Florisvaldo Coelho.
No corêto do largo da Prefeitura, um grupo de trez faz um eterno plantão. Convem desalojarem-se para não alarmarmos quem são.
Na estação de Alagoinhas, à passagem do trem de quinta feira, para Sergipe,oDaniel, o Milton Santos e outros, ficaram doidamente apaixonados por uma passageira... nossa conhecida.
O A. Bastos tem uma velha cavação para os lados do Cinema Popular.
Gallo Júnior, outr’ora retrahido, esta agora se sahindo com cousinhas novas...
velha bicycleta que mandou vir da Capital do Aracy. Oh! Djalma, tenha
juízo rapaz!
Ao lado dos citados, entre muitos, estão: Giló, Jujú, H. Pito, Dandoca, Noé, Bambú, Vigilante, Tenório, X, Silvestre, Cafedo, K. Lado, Besourinho, que assinavam as mais divertidas crônicas e textos poéticos nos quais demonstravam tanto inspiração poética como recurso e repertório intelectual, quase erudito, diversificando os valores conteudísticos e literários do jornal O Alarma, que atende e corresponde aos anseios da pluralidade cultural alagoinhense.
Essa pluralidade é constante em O Alarma, quando pensamos nos múltiplos indivíduos que compuseram e construíram o jornal de l932, assim como o Brasil com sua pluricultura formada a partir da nossa engenhosa “descoberta” proporcionada por tantos colaboradores “bem intencionados”, que deixaram os seus extratos culturas que, ainda hoje, permanecem em nosso corpo pluricultural e que se intensifica a cada passar de ano pelas modificações impostas e coercitivas. A exemplo disto, temos a globalização. Desde lá, já constituíamos uma sociedade plural, a começar pelo aspecto humano – a nacionalidade brasileira – que caracteriza um processo talvez singular entre as demais colonizações existentes, melhor, entre os demais países pós-colonizados.
O Alarma nos transporta, novelisticamente, para o passado e nos torna participantes dos acontecimentos da classe média alagoinhense através dos registros escritos feitos pelos próprios personagens da época. Esse transporte e essa conseqüente participação, acontece, também, com a nossa e as demais histórias sociais pois a escrita nos dá a possibilidade do conhecimento que transcende os tempos. Quando lemos passamos a fazer parte da trama lida, mesmo que, às vezes, seja um sujeito “passivo”, na perspectiva de não poder agir interferindo, nem presentificar-se ativamente na obra. Só com a leitura temos a possibilidade de agenciarmos com os conhecimentos cedidos pelos textos, e os já existentes, numa interação entre obra e leitor e vice-versa, abrindo as portas da fantasia, imaginação ou sonhos, ajudando, assim, a perlaboração de outra visão, outro foco sob o assunto tratado no texto. Essa interação extrapola, ainda, as fronteiras da pauta da folha de papel e engloba todas as esferas: social, pessoal, coletiva, num processo dialógico e dialético: um hipertexto formado de unidades menores (textos/discursos), unidas num corpo único e plural. Neste sentido se constrói O Alarmae, como foi a nossa colonização, acontece, então, uma tessitura do discurso que engendra e torna-se uma amálgama de discursos. O Alarma une vários pensamentos e estilos nos textos, constituindo-se num instrumento plural na singularidade desse jornal.
Essa singularidade se expressa, também, na forma da organização das manchetes e colunas que não permaneciam no mesmo lugar como os jornais de hoje. Elas passavam de lá para cá como transeuntes; as crônicas e os demais textos não tinham necessariamente que começarem e terminarem na mesma página ou, até, no mesmo semanário. O exemplo dessa descontinuidade de matéria é a “perseguição” que sofre Mestre Marcello indo desde o exemplar 16 até até o último encontrado, numa onda de desqualificações e ferroadas que culminam no enterro do Mestre com direito até a atestado de óbito cedido pela S.M.L. de A.G. no O Alarma número 22, página 1, assinada pelo Diretor, chamado de “doutorando”, Lourival Pessôa:
O diretor do Serviço Médico Legal de Analyses Grammaticaes, attesta que a causa-mortis do cidadão Mestre Marcello foi proveniente de intoxicação cerebral de asneiras conforme consta da autopsia procedida pelo Dr. Lexicologia.
Tudo essa celeuma foi proveniente de uma outra matéria intitulada “Vocações” publicada no Jornal Correio de Alagoinhas, assinada pelo Mestre Marcello, que classificava os escritores d’O Alarma como “Trefegos rapaSes”, estourando, com essa matéria, uma guerra escrita entre eles pautada em insultos e provocações que ficavam às claras para o leitor que acompanhava a cada capítulo das brigas através das matérias. Paira a dúvida se eram mesmo brigas ou se eles próprios eram os autores de ambas as matérias apenas para ter assunto. Se essa suspeita for verdadeira, os autores alcançaram o seu propósito de prender a atenção dos leitores pelo divertimento que nos causa a leitura dos insultos lançados e trocados constantemente.
O Alarma era espaço aberto onde todas as coisas poderiam ser ditas e respondidas respectivamente. Tudo era comunicado: desde a movimentação interna da diretoria, até provocações e contendas entre personagens. A Diretoria era formada pelos Diretores: J. G. Júnior e E. B. Costa. Redator: Ornellas Costa e o Gerente era A. V. Júnior. No semanário número 7, a matéria “Na Senda” explicita, como num desabafo explicativo, os motivos das desistências de J. Gallo Júnior, Archimino Ornellas e Victoriano Júnior:
Um motivo justificado, porém, assim obrigou a proceder nos esforçados companheiros João Gallo Júnior, – o Chateaubriand, mirim –; Archimino Ornellas e Victoriano Júnior.
Assumiram os cargos Alcides Silva e Maria Feijó de Souza, conceituada escritora de Alagoinhas e objeto de estudo da pesquisadora Daniela Brandão Gomes. Maria Feijó permanece no cargo até o último semanário encontrado.
Como O Alarma é um veículo plural e diarístico, no mesmo número – 7º, 20/04/32 – J. Gallo Júnior assina uma matéria intitulada “Declarações” e registra:
Por motivo superior afasto-me, espontaneamente, da direção deste jornal, não tendo, portanto, d’agora por diante, nenhuma interferencia com o mesmo. 20/04/32.
Alagoinhas, depois de 68 anos, toma conhecimento de uma molécula de sua pluralidade sócio-cultural: perambula, mexe, reconhece, participa, reestrutura e reler uma sociedade passada na contemporaneidade por onde circula, ainda hoje, personagens dessa época de l932, como é o caso de Maria Feijó que também se protegia atrás do pseudônimo Marijó nos seus escritos e tantos outros nomes que permanecem com um certo prestígio e ascensão social – como bons exemplos, temos as famílias Rabello e Braga e, sem dúvida, muitos dos pseudônimos não identificados até o momento.
Os autores escondiam sua identidade “real” através de pseudônimos criativos, fazendo como muitos escritores consagrados que se utilizavam dessa estratégia para concretizar a utilização das máscaras próprias- e, pelo seu poder com a linguagem-, finjam tão bem que conseguem dar vida a outros nomes que se personificam: criam vida própria e partilham do convívio de várias outras personalidades. A revista Veja (GRAIEB, Carlos, coluna Livros, 12 /07 / 2000, p.140) nos fornece mais exemplos da importância do enigma dos pseudônimos na matéria “Sujeito Oculto”, informando, rapidamente, os motivos que levaram muitos autores a escreverem artigos e livros sob pseudônimos. Desde o final do século XIX, nos folhetins do Rio de Janeiro, circulavam textos cujo autor era Víctor Leal, escritor de histórias emocionantes para a Gazeta de Notícias – l890-l893 –, um dos jornais mais populares do período. O público leitor das obras de Leal não o conhecia, nem o via em lugar algum; tinha uma vaga idéia do seu rosto pela ilustração feita em pintura, personificando-o, e um nome escondia não um escritor, mas quatro: o poeta Olavo Bilac, o romancista Aluísio de Azevedo, o dramaturgo Coelho Neto e o jornalista Pardal Mallet.
Os pseudônimos geram sempre um clima de curiosidade pelo enigma que circunda promovendo suspeitas e indagações, protegendo os autores por motivos diversos, político, social, particular e/ou coletivo como é o caso d’O Alarma. Segundo a historiadora Isabel Lustosa, segundo Graieb, até mesmo D. Pedro I, que insultava seus adversários, assinava seus textos pelo pseudônimo “Duende” ou “Inimigos dos Marotos”, ou ainda Machado de Assis com sua crônicas assinadas por “Boas Noites”, sendo descoberto o verdadeiro autor após quarenta anos.
O Alarmaprima pela irreverência e ironia para tratar de fatos do cotidiano na esfera social e/ou particular, reservando, também, um espaço para a poesia, presente em forma de poemas e interessantes recados poéticos:
Perdi o lencinho que tu me deste nos aureos tempos que nos amavamos.
Perdi sòmente – e é preciso que te diga- um trophéo das minhas caçadas de amor!
Como recordação tua era só o que me restava. Perdi-o... Não poderei mais lembrar-me de ti. Tenório, vol.1, p. 1
Como escreveu Tenório a sua amada, não poder mais lembrar-se dela pela falta do lencinho sugere algo concreto do amor, algo que passa sobretudo pela sua abstração. E um dos veículos “concretos” e informantes dessa sociedade presentificada, de l932, é O Alarmae sua forma diferente de tratar os assuntos que concentra, irreverentemente, uma pluralidade de estilos e gentes.